Afinal, o lend-lease salvou a URSS ou não?

Lançador de foguetes Katyusha em um caminhão Studebaker US6 2+1⁄2-ton 6×6, no Museu da Grande Guerra Patriótica (que é como os russos chamam a Segunda Guerra Mundial), Moscou. Os Studebaker americanos foram essenciais ao esforço de guerra soviético.

Um debate muito comum em fóruns de internet é em relação ao lend-lease e sua importância para a URSS na Segunda Guerra Mundial. Muitos alegam que a URSS venceu a Alemanha praticamente sozinha, com o lend-lease não passando de algo que ajudou mas não foi essencial – ou seja, os soviéticos venceriam a Alemanha de qualquer maneira, mesmo sem o lend-lease.

O que é verdade e o que é falso neste argumento? Vamos começar falando sobre o lend-lease em si, depois sobre o apoio à URSS e também sobre a propaganda soviética em relação ao apoio.

LEND-LEASE

A quebra da bolsa de Nova York de 1929 causou uma crise econômica, política e social no mundo todo. Os desdobramentos da crise, inclusive, estavam entre os motivos que levaram à Segunda Guerra Mundial, mas isso é assunto para outro artigo.

Para este artigo, o importante é saber que os EUA, após se recuperar da crise, entraram em uma onda de isolacionismo ao mesmo tempo em que na Europa havia um clima de que haveria outra guerra. Quando a guerra começou, já havia leis que impediam os EUA de fornecer ajuda militar direta aos beligerantes. Nos primeiros anos da Segunda Guerra, a oposição popular americana em relação a qualquer participação dos EUA no conflito era forte o bastante para que o Congresso não só se recusasse a mudar tais leis, como também aprovasse outras leis anti guerra.

A Inglaterra estava em uma situação particularmente vulnerável, pois não tinha se recuperado bem da Primeira Guerra (que lhe causou quase 1 milhão de baixas, fora o custo econômico) e da crise de 1929. Para piorar a situação, em junho de 1940, menos de um ano depois do começo da guerra na Europa, a França foi obrigada a se render, e a partir deste momento a Inglaterra teve que suportar, praticamente sozinha, a poderosa máquina de guerra nazista.

As leis que impediam a venda de armas aos países beligerantes já eram um problema bastante sério para a Inglaterra, mas com a crise econômica e os gastos da guerra, chegou um momento em que os britânicos simplesmente não tinham dinheiro para continuar pagando sequer os suprimentos não-bélicos, como alimentos. Mais um pouco e Inglaterra seria forçada a se render aos alemães, algo que Churchill considerava inaceitável.

Os britânicos fizeram pedidos desesperados de ajuda, que os americanos ignoraram por alguns meses. Entretanto, a insistência inglesa mais a proximidade histórica entre americanos e britânicos levou o Congresso Americano a ceder à pressão inglesa e, em 11 de março de 1941, o Congresso finalmente aprovou uma lei que desse um “jeitinho” na questão do apoio. Esta lei ficou conhecida como lend-lease.

De modo resumido, a ideia do lend-lease era emprestar armas e outros bens importantes para o esforço de guerra a países “considerados de vital importância para a segurança dos EUA”, com os países receptores pagando pelo bem ao devolver. Na prática, porém, o resultado foi que os EUA nunca foram pagos por boa parte destes bens.

Os primeiros países a se beneficiar com o lend-lease foram Inglaterra e China, mas não foram os únicos – depois do ataque alemão à URSS e, principalmente, após o ataque japonês a Pearl Harbor, com os EUA entrando “de cabeça” na guerra, a União Soviética, embora ideologicamente antagônica aos EUA e à Inglaterra, também passou a receber uma ajuda considerável.

E aqui começa a divergência – afinal de contas, qual foi a importância do lend-lease para os soviéticos?

LEND-LEASE PARA A UNIÃO SOVIÉTICA

Em 22 de junho de 1941, apenas três meses depois da aprovação do lend-lease, a URSS foi invadida pela Alemanha, na Operação Barbarossa. O Alto Comando Soviético decidiu seguir a mesma estratégia que derrotou Napoleão 130 anos antes – terra arrasada.

De modo geral, a terra arrasada consiste em literalmente queimar tudo no caminho do avanço inimigo, forçando-o a estender ao máximo suas linhas de suprimento logísticas e contra-atacar sempre que possível. É uma estratégia desesperada, mas a URSS não tinha muitas opções naquele momento, já que o avanço alemão era muito rápido, e boa parte das VVS (Forças Aéreas da URSS) foi destruída ainda em terra nos primeiros dias.

Uma consequência direta das estratégias de terra arrasada é a fome, e a URSS sofreu com a maior fome de sua História. Muitos historiadores acreditam que boa parte das 20 milhões de mortes que a URSS sofreu na guerra foram, direta ou indiretamente, causadas pela fome.

Em dezembro de 1941, o avanço alemão praticamente parou em função do rigoroso inverno, exatamente quando os EUA entraram oficialmente na guerra. Historiadores apontam que, naquele momento, a URSS dispunha de apenas 670 ‘tanques’ (carros de combate) para defender Moscou – dos quais apenas 205 eram tanques médios ou pesados – com os alemães já tendo destruído mais de 20 mil tanques soviéticos. A Inglaterra mandou mais 477 até o final de 1941, um reforço essencial à defesa da cidade, num momento em que os alemães estavam a poucos quilômetros da capital.

Embora muito se fale, e com razão, da importância do T-34, deve-se lembrar que sua produção em massa começou de fato em 1942, mas já em novembro de 1941 os tanques ingleses estavam sendo usados em combates contra os alemães. O envio de tanques pelos americanos e ingleses, embora eclipsado pela grande produção soviética, ainda foi importante naquele momento crítico da guerra: em junho de 1942, cerca de 16% dos blindados em mãos dos soviéticos eram importados.

O mesmo aconteceu com as aeronaves – cerca de 15% das aeronaves usadas na defesa de Moscou no final de 1941 eram inglesas ou americanas (principalmente os Hawker Hurricane e Curtiss P-40 Tomahawk). Na defesa de Leningrado, a proporção de aeronaves importadas era ainda maior, cerca de 76%.

Os EUA já tinham enviado, mesmo antes de entrar na guerra, mais de 360 mil toneladas de materiais para a URSS, valores que aumentaram consideravelmente já em 1942 para quase 2,5 milhões de toneladas. No total, os EUA mandaram quase 17,5 milhões de toneladas de bens para a URSS, além de subsidiar o envio, pela Inglaterra, de mais 4 milhões de toneladas. O valor do apoio, em números atualizados, seria de aproximadamente 180 bilhões de dólares:

  • 400.000 jipes e caminhões
  • 14.000 aeronaves
  • 8.000 tratores
  • 13.000 tanques
  • 1,5 milhões de cobertores
  • 15 milhões de pares de coturnos
  • 107.000 toneladas de algodão
  • 2,7 milhões de toneladas de produtos petroquímicos
  • 4,5 milhões de toneladas de alimentos

De particular importância para os soviéticos, num primeiro momento, foi o envio de comida. A queda na produção de alimentos foi muito grave, especialmente porque o território da Ucrânia foi conquistado antes do inverno. Os soviéticos perderam cerca de 40% das terras produtivas no avanço inicial do Eixo, além de 60% dos cavalos, 55% das vacas, 85% dos porcos e 63% do rebanho de caprinos e ovinos, sem contar a perda de máquinas agrícolas e 20 milhões de pessoas do campo que foram desviadas para as fábricas ou para o exército. Portanto, o envio de bens não-militares, como máquinas agrícolas e alimento, foi tão ou mais importante que os envios de bens militares. Os EUA mandaram cerca de 3 milhões de toneladas de alimentos para a URSS.

Napoleão teria dito que “exércitos marcham sobre seus estômagos. Anastas Mikoyan, Ministro do Comércio da URSS durante a época, disse o seguinte ao ser questionado sobre a importância dos alimentos do lend-lease, aparentemente concordando com Napoleão:

Imagine, por exemplo, o exército, equipado com todas as armas necessárias, bem treinado, mas seus soldados estão desnutridos, ou pior. O que acontecerá com esses guerreiros? E quando começamos a receber ensopado americano, gordura, ovo em pó, farinha, e outros produtos, imagine as calorias extras que nossos soldados têm!

Anastas Mikoyan

Sobre o alumínio, que era essencial na produção de aeronaves e outras armas, e que o lend-lease mandou cerca de 46% do alumínio usado pela URSS durante a guerra, o próprio Stalin disse o seguinte:

Dê-nos alumínio na quantidade certa, e poderemos lutar por mais quatro anos

Stalin

Segundo o historiador russo Boris Sokolov:

De modo geral, pode-se chegar à seguinte conclusão: sem esses carregamentos ocidentais sob o Lend-Lease, a União Soviética não só não teria sido capaz de vencer a Grande Guerra Patriótica, como também não teria sido capaz de se opor aos invasores alemães, uma vez que ela própria não podia produzir quantidades suficientes de armas e equipamento militar ou suprimentos adequados de combustível e munição. As autoridades soviéticas estavam bem cientes dessa dependência da Lend-Lease. Assim, Stalin disse a Harry Hopkins [emissário de Roosevelt para Moscou em julho de 1941] que a URSS não tinha como igualar o poder da Alemanha como ocupante da Europa e seus recursos sem apoio americano.

Boris Sokolov

Ainda segundo Sokolov:

Além disso, 35.800 estações de rádio, 5.899 receptores e 348 localizadores foram entregues à URSS sob o Lend-Lease, que supriu as necessidades básicas do Exército Vermelho. 32.200 motocicletas chegaram dos EUA, que era 1,2 vezes a produção soviética de motocicletas em 1941-1945, e 409,5 mil carros, que era cerca de 1,5 vezes a produção soviética durante os anos de guerra. Em 1º de maio de 1945, na frota automobilística do Exército Vermelho, os veículos entregues em regime de Lend-Lease representavam 32,8% (58,1% eram veículos produzidos internamente e 9,1% eram veículos capturados). Dada a maior capacidade de carga e melhor qualidade, o papel dos carros americanos foi ainda maior. Os caminhões Studebaker, em particular, foram usados ​​como tratores de artilharia. Além disso, os lançadores de foguetes soviéticos Katyusha foram colocados quase exclusivamente no chassi Studebaker.

O funcionamento normal do transporte ferroviário soviético teria sido impossível sem Lend-Lease. A produção das principais locomotivas a vapor e locomotivas a diesel na URSS durante os anos de guerra foi praticamente interrompida. Sob o Lend-Lease, 1.900 locomotivas a vapor e 66 locomotivas diesel-elétricas foram entregues à URSS durante os anos de guerra, o que excedeu a produção total soviética de locomotivas a vapor em 2,4 vezes e locomotivas elétricas em 11 vezes. Vagões ferroviários no Lend-lease foram entregues 10,2 vezes mais do que a produção soviética em 1942-1945. Quase metade dos trilhos usados ​​na URSS estavam sob Lend-Lease. Deixe-me lembrá-lo que durante a Primeira Guerra Mundial, a crise de transporte na Rússia na virada de 1916-1917, que provocou em grande parte a Revolução de Fevereiro, foi causada pela produção insuficiente de trilhos ferroviários, locomotivas a vapor e vagões, já que as capacidades da indústria foram reorientados para a produção de armas.(…)

Equipamento industrial também foi fornecido pelo Ocidente. 38,1 mil ferramentas para corte de metais vieram dos EUA e 6,5 mil ferramentas de corte e 104 prensas vieram da Grã-Bretanha. Na União Soviética, em 1941-1945, foram produzidas 115,4 mil ferramentas para corte de metais, ou seja, 2,6 vezes mais do que as entregas do Lend-Lease. No entanto, na realidade, se considerarmos os indicadores de custo, o papel das máquinas de corte ocidentais é muito mais significativo: elas eram mais complexas e mais caras que as soviéticas. Somente dos EUA em 1941-1945, máquinas e equipamentos para a indústria no valor de 607 milhões de dólares foram entregues à URSS.

A oferta de alimentos também não deve ser subestimada. No total, 610.000 toneladas de açúcar foram recebidas em Lend-Lease, ou seja, quase 30% de todo o açúcar consumido na URSS durante os anos de guerra. Foram entregues 664,6 mil toneladas de carne enlatada, o famoso ensopado americano. Isso foi mais do que a produção soviética total de todos os alimentos enlatados durante os anos de guerra. Outras 268,5 mil toneladas de banha, 219 mil toneladas de banha (gordura interna), 105 mil toneladas de “melange” [NT um alimento industrializado à base de ovo] e muitos outros mantimentos vieram da América. O Exército Vermelho foi abastecido em grande parte por meio de suprimentos Lend-Lease, mas algo também caiu para a população civil.

Boris Sokolov

Nikita Kruschev, um importante aliado de Stalin e seu sucessor no governo da União Soviética, falou sobre isso em suas memórias:

Gostaria de expressar minha opinião sincera sobre as opiniões de Stalin sobre se o Exército Vermelho e a União Soviética poderiam ter lidado com a Alemanha nazista e sobrevivido à guerra sem a ajuda dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha. Em primeiro lugar, gostaria de falar sobre algumas observações que Stalin fez e repetiu várias vezes quando estávamos “discutindo livremente” entre nós. Ele afirmou sem rodeios que se os Estados Unidos não nos tivessem ajudado, não teríamos vencido a guerra. Se tivéssemos que lutar contra a Alemanha nazista um a um, não poderíamos ter resistido à pressão alemã e teríamos perdido a guerra. Ninguém jamais discutiu esse assunto oficialmente, e não acho que Stalin tenha deixado qualquer prova escrita de sua opinião, mas vou afirmar aqui que várias vezes em conversas comigo ele observou que essas eram as circunstâncias reais. Ele nunca fez questão de manter uma conversa sobre o assunto, mas quando estávamos em algum tipo de conversa descontraída, repassando questões internacionais do passado e do presente, e quando voltávamos ao assunto do caminho que havíamos percorrido durante a guerra, foi isso que ele disse. Quando ouvi suas observações, estava totalmente de acordo com ele, e hoje estou ainda mais.

Nikita Kruschev

O próprio Stalin disse, em 30 de novembro de 1943, em um jantar de gala em homenagem ao aniversário de Churchill, em Teerão, fez o seguinte em um brinde :

Quero dizer a vocês o que, do ponto de vista russo, o presidente e os Estados Unidos fizeram para as coisas mais importantes. Os Estados Unidos provaram que podem produzir de 8.000 a 10.000 aeronaves por mês, a Rússia pode produzir no máximo 3.000 aeronaves por mês, a Inglaterra produz 3.000-3.500 por mês, principalmente bombardeiros pesados, um país de máquinas. Sem essas máquinas do Lend-Lease, teríamos perdido esta guerra.

Josef Stalin

Ou seja, era consenso entre o Alto Comando Soviético na época da Segunda Guerra Mundial que o lend-lease foi fundamental para a vitória sobre a Alemanha. Mas então como, nos dias de hoje, muitas pessoas minimizam esta importância?

PROPAGANDA SOVIÉTICA PÓS SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Parte da resposta se encontra também nas memórias de Kruschev – talvez você não tenha percebido, então vou destacar novamente aqui:

Ninguém tocou oficialmente neste tópico aqui, e Stalin, eu acho, não deixou vestígios escritos de sua opinião em nenhum lugar

Nikita Kruschev

Stalin era muito orgulhoso, e dificilmente admitiria que a ajuda anglo-americana foi fundamental. E como tal conceito poderia prejudicar a narrativa da “superioridade do comunismo sobre o capitalismo”, houve um esforço coordenado da máquina de propaganda soviética para menosprezar o lend-lease, bem de acordo com o clima da Guerra Fria.

Já em 1948, vários livros publicados na URSS desdenharam do apoio americano, dizendo que correspondia a cerca de 4% da produção da URSS da época, e que os soviéticos poderiam ter ganho mesmo sem o apoio ango-americano. Este número, como vários outros, veio de fontes no mínimo questionáveis.

Entretanto, quem estava no Alto Comando na época sabia que não era assim. Zhukov, que foi um dos principais generais soviéticos na Segunda Guerra e posteriormente foi Ministro da Defesa da URSS, disse o seguinte em 1963:

Agora eles dizem que os aliados nunca nos ajudaram … Mas não se pode negar que os americanos nos levaram tantos materiais, sem os quais não poderíamos formar nossas reservas e não poderíamos continuar a guerra … Não tínhamos explosivos, nem pólvora. Não havia nada para equipar cartuchos de fuzil. Os americanos realmente nos ajudaram com pólvora, explosivos. E quanta chapa de aço eles nos levaram! Como poderíamos começar rapidamente a produzir tanques se não fosse pela ajuda americana com aço? E agora eles apresentam coisas como esta que nós tínhamos em abundância.

Georgy Zhukov

Alguns historiadores calculam que o apoio americano, na verdade, correspondeu a cerca de 78% do PIB soviético em um ano, ou aproximadamente 20% de todo o PIB soviético ao longo da guerra, que evidentemente inclui itens que não eram necessários ao esforço de guerra.

Sokolov acrescenta:

Mas a importância do lend-lease não estava apenas em sua participação no PIB soviético durante a guerra. Os americanos não forneceram toda a gama de produtos manufaturados à URSS. O lend-lease cobriu os principais “gargalos” da economia soviética – a produção de gasolina, explosivos, alumínio, metais não ferrosos, estações de rádio, caminhões, etc. Sem suprimentos do Lend-Lease, a economia soviética teria produzido significativamente menos tanques e aviões, bombas, minas e projéteis do que na realidade, e seria muito mais difícil usar todos esses equipamentos por falta de combustível, veículos, comunicações, etc”.

Boris Sokolov

Outra reclamação constante na propaganda soviética é em relação à “má qualidade” das armas anglo-americanas. Além de fatores de propaganda, deve-se lembrar que o conceito Ocidental de armas é diferente do soviético, e em muitos casos os recrutas soviéticos simplesmente não sabiam extrair todo o potencial delas, dadas a falta de familiaridade e pouco tempo disponível para treinamentos.

A qualidade das armas anglo-americanas pode ser comprovada pela fala de oficiais diretamente envolvidos no uso destas armas, como Yakov Fedorenko, vice-comissário de defesa do povo, marechal das forças blindadas, que disse o seguinte sobre a qualidade das armas anglo-americanas:

Dos modelos de equipamentos de tanques atualmente em serviço com o Exército Vermelho, deve-se destacar o tanque médio americano Sherman M4A2 com armas de artilharia na forma de um canhão de alta potência de 76,2 mm e um tanque canadense tanque leve” Valentin” MK-9 com um canhão de recuo limitado de 57 mm … Esses modelos de tanques se comparam favoravelmente com os domésticos em facilidade de controle, vida útil significativamente maior entre revisões, facilidade de manutenção e reparos contínuos, e no ao mesmo tempo, seu armamento, blindagem e mobilidade permitem resolver todo o conjunto de tarefas propostas pelas forças blindadas…

Yakov Fedorenko

Sokolov conclui com o seguinte raciocínio:

Para realmente apreciar o significado do Lend-Lease para uma vitória soviética, basta imaginar como a União Soviética teria que lutar se não houvesse suprimentos de Lend-Lease. Assim, sem Lend-Lease, o Exército Vermelho não teria à sua disposição um terço das munições, metade das aeronaves e metade dos tanques. Além disso, haveria interrupções constantes em veículos e combustível, e a paralisia quebraria periodicamente as ferrovias. Além disso, as tropas soviéticas teriam sido muito pior administradas, experimentando uma escassez de estações de rádio e constantemente passando fome sem ensopado americano, banha e melange.

É claro que o lend-lease não era a única condição para a vitória. Mais fábricas, máquinas-ferramentas e trabalhadores eram necessários para produzir tanques, aeronaves e outras armas a partir de matérias-primas fornecidas pelos Aliados. Era necessário um Exército Vermelho multimilionário, que poderia ser armado e lançado à batalha. Exigia um enorme território soviético, que os alemães não podiam ocupar mesmo após a destruição de quase todas as tropas soviéticas pré-guerra, e imensos recursos humanos. E o que era necessário era um regime político que não fosse sensível nem a perdas humanas nem a derrotas militares, e capaz de forçar seu povo a lutar mesmo em condições aparentemente desesperadas.

Os aliados ocidentais poderiam ter derrotado Hitler se a URSS tivesse sido derrotada? Eu acho que eles poderiam, só que teria custado a eles significativamente mais baixas do que na Segunda Guerra Mundial real. E nesse cenário alternativo, para vencer no outono de 1945, seria necessário lançar um ataque nuclear maciço em território alemão com uma dúzia de bombas atômicas.

É claro que a Lend-Lease não era de forma alguma uma instituição de caridade por parte dos aliados ocidentais. Ao ajudar Stalin a resistir a Hitler, os Estados Unidos e o Império Britânico salvaram centenas de milhares de vidas de seus próprios soldados.

Boris Sokolov

CONCLUSÃO

Esperamos que este breve artigo, que não tem a pretensão de ser exaustivo – até mesmo porque ainda há documentos da época que ainda seguem confidenciais – mostre aos nossos estimados leitores que, ao contrário do que preconiza a propaganda soviética da Guerra Fria, o lend-lease foi sim fundamental para a vitória sobre a Alemanha nazista.

O fator tempo é o diferencial – sem a ajuda dos Aliados no momento em que os recursos chegaram, a URSS teria sido forçada a se render, seja pela fome, seja pela falta de armas.

Ninguém nega que, em termos de vidas humanas, a URSS pagou um preço muito maior que os demais Aliados, e que sua participação foi fundamental para derrotar a Alemanha. Mas também é insensato negar que, sem os americanos, os soviéticos provavelmente seriam derrotados pelos alemães ou, no mínimo, sofreriam perdas ainda piores.