Uma intervenção militar em um país estrangeiro, uma ação que muitas pessoas pensam ser facilmente realizada, é na verdade um ato que deve ser bem pensado e planejado, pois suas ações nesse movimento podem causar consequências irreversíveis para o povo invadido e até mesmo para que o invade. Nesse artigo vamos falar de uma operação, ocorrida no Afeganistão, iniciada a mais de quarenta anos atrás, e cujas consequências ressoam até os dias de hoje.

A OPERAÇÃO STHORM-333

A Operação Sthorm-333 (em russo: Шторм-333, também conhecida como “Storm-333”“Tempestade-333”) foi uma operação realizada no dia 27 de dezembro de 1979, uma quinta-feira, na qual as forças especiais soviéticas invadiram o palácio Tajbeg, situado em Cabul, capital do Afeganistão e assassinaram o presidente afegão Hafizullah Amin (que havia assumido poucos meses antes). Um número desconhecido de guardas do palácio afegão foi morto enquanto 150 foram capturados. O filho de 11 anos de Amin morreu de ferimentos por estilhaços de bombas. Os soviéticos impuseram Babrak Karmal como sucessor de Amin.

Vários outros prédios do governo foram atacados durante a operação, incluindo o prédio do Ministério do Interior, o prédio da Segurança Interna afegão (KHAD) e o prédio do Estado Maior. Veteranos do Alpha Group chamam esta operação de uma das mais bem-sucedidas na história do grupo. Documentos russos recentemente desclassificados mostram que a liderança soviética acreditava que Amin tinha contatos secretos com a embaixada dos EUA e provavelmente era um agente duplo. No entanto, esta suposição foi mais tarde provada como falsa.

MOTIVAÇÕES DA OPERAÇÃO

O presidente Hafizullah Amin, principal alvo da operação, em 1979.

A República Democrática do Afeganistão foi inicialmente fundada em abril de 1978 por Nur Muhammad Taraki, que era pró-União Soviética, de modo que as relações afegãs-soviéticas eram amistosas. Em setembro de 1979, Taraki foi deposto por Hafizullah Amin, devido a conflitos intrapartidários. Depois desse evento e da suspeita morte de Taraki (um provável assassinato pelos seguidores de Amin), as relações entre o Afeganistão e a União Soviética começaram a se deteriorar; em dezembro, a liderança soviética estabeleceu uma aliança com Babrak Karmal, que fazia oposição a Amim. A União Soviética declarou seu plano de intervir no Afeganistão em dezembro de 1979, e a liderança soviética iniciou a “Operação Sthorm-333” (a primeira fase da intervenção militar no país) no dia 27 de dezembro de 1979.

AS FORÇAS SOVIÉTICAS

Soldados soviéticos do “Batalhão Mulçumano” após a operação.

Para garantir o resultado positivo dessa missão, foram selecionados para executar a operação os melhores homens da elite das forças especiais soviéticas (Spetsnaz) na época: 24 operadores da unidade Гром (Grom – “Trovão”) do Grupo Alpha (ou Spetsgruppa “A”) e 30 operadores da unidade Зенит (Zenit – “Zenith”), mais tarde conhecido como Grupo Vega (ou Spetsgruppa “V”), uma unidade irmã do Grupo Alpha. Ambas as unidades eram controladas pela KGB, o serviço de segurança da então URSS. Havia também como apoio 87 homens de uma companhia do 345º Regimento Aerotransportado de Guardas e 520 homens do 154º Destacamento Spetsnaz Separado do Ministério da Defesa da URSS conhecido como o “Batalhão Muçulmano” porque consistia exclusivamente de soldados das repúblicas que adotavam a religião islâmica da URSS (na época esse batalhão estava cedido ao exército afegão). Essa unidade também operava veículos blindados de transporte sobre lagartas BMP-2, que seriam vitais para o sucesso da operação.

ASSALTO AO PALÁCIO E A MORTE DE AMIM

O Palácio de Tajberg, o principal alvo da operação, antes do ataque,

O ataque ao Palácio de Tajbeg, um palácio construído na década de 1920 pela família real afegã e localizado a cerca de 15 km a sudoeste do centro de Cabul, Afeganistão, onde o Presidente Amin estava residindo com a sua família por sugestão de seus assessores de segurança desde o dia 20 de dezembro, ocorreu ao anoitecer do dia 27 de dezembro de 1979, poucas horas após um jantar oferecido pelas autoridades soviéticas no país (sendo envenenado a mando da KGB, mas conseguindo sobreviver porque o refrigerante usado junto com o veneno anulou parcialmente seu efeito).

Durante o ataque, no qual inicialmente não sabia quem o estava atacando, Amin ainda acreditava que a União Soviética estava do seu lado e disse a seu ajudante: “Os soviéticos nos ajudarão”. O ajudante respondeu que eram os próprios soviéticos que os atacavam; Amin inicialmente respondeu que isso era mentira. Só depois que ele tentou, mas não conseguiu entrar em contato com o Chefe do Estado-Maior Geral do exército afegão (que o traiu em favor dos soviéticos), ele murmurou: “Eu adivinhei. É tudo verdade”.

Ele foi capturado vivo pelos operadores da unidade Grom, mas semiconsciente, sofrendo convulsões devido à interrupção do tratamento médico da tentativa de envenenamento que havia sofrido no jantar poucas horas antes. Os detalhes exatos de sua morte nunca foram confirmados por nenhuma testemunha ocular. O anúncio oficial de sua morte na Rádio Cabul, conforme relatado pelo New York Times em 27 de dezembro de 1979, foi “Amin foi condenado à morte em um julgamento revolucionário por crimes contra o Estado e essa sentença foi cumprida”.

O filho de Amin foi fatalmente ferido e morreu pouco depois. Uma filha foi ferida, mas sobreviveu. Cerca de 100 outros afegãos, incluindo a maioria da guarda pessoal de Amin e alguns guardas do palácio, também morreram nos combates (muitos executados pelos operadores, pois a ordem era não deixar testemunhas vivas da operação) e parte do palácio pegou fogo. Cerca de 150 dos 180 guardas do Palácio, que eram tropas regulares do exército afegão, renderam-se quando perceberam que as tropas atacantes eram da URSS, não de uma unidade afegã.

BAIXAS SOVIÉTICAS

Selos soviéticos comemorativos sobre a operação.

Durante o ataque ao Tajbeg, cinco operadores das forças especiais da KGB, seis homens do “Batalhão Muçulmano” e nove paraquedistas foram mortos. O comandante do contingente do KGB, o coronel Boyarinov, foi morto. Quase todos os operadores das tropas da KGB na operação ficaram feridos. Além disso, o médico do exército soviético, coronel V. P. Kuznechenkov, que estava tratando o Presidente Amin do envenenamento, foi morto por fogo amigo no palácio e foi postumamente condecorado com a Ordem da Bandeira Vermelha.

RECORDAÇÕES DOS PARTICIPANTES

Militares soviéticos que participaram da “Operação Sthorm-333”.

De acordo com Oleg Balashov, que foi o segundo no comando do grupo de ataque, o grupo foi liderado por duas unidades de elite dos Grupos Alpha e Vega (15 a 20 operadores cada). O grupo Alfa visou atacar Amin, e o grupo Vega teve a tarefa de coletar evidências factuais de que Amin estava colaborando com os Estados Unidos. Ambos os grupos foram trazidos secretamente para o Afeganistão e misturados com os Batalhão Muçulmano para causar uma impressão de que a operação foi realizada por unidades locais, enquanto na realidade quase todo o trabalho foi feito pelos Grupos Alpha e Vega.

Antes da operação, Balashov examinou a área sob o pretexto de ser um guarda-costas de um diplomata soviético. Sua unidade sabia que eles estavam indo para uma missão praticamente suicida e se sentiu desconfortável com isso – cerca de 80% deles ficaram feridos logo depois que deixaram seus veículos, mas continuaram o ataque. Como Balashov esperava, as tropas de Amin que defendiam o palácio atacavam o primeiro e o último veículo do comboio composto por seis blindados. Ele colocou sua equipe de cinco homens na frente do BMP e, quando o BMP foi imobilizado pelo fogo das tropas de Amin, ordenou que eles abandonassem o BMP e corressem para o palácio. Todos os cinco foram rapidamente atingidos por fogo intenso dos guardas, mas foram salvos por coletes à prova de balas e capacetes.

CONSEQUÊNCIAS DA OPERAÇÃO E O SEU LEGADO

O Palácio de Tajberg após o ataque. Ele foi reformado e tornou-se o comando do 40º Exército Soviético até 1988. Novamente destruído durante o regime Talibã, sofreu nova reforma que terminou em 2021, antes da nova Queda de Cabul.

A deposição e morte de Amin representou o estopim da Guerra Soviético-Afegã entre 1979 e 1988. Travada no contexto da Guerra Fria, as forças soviéticas lutaram ao lado das tropas do governo marxista da República Democrática do Afeganistão contra grupos de guerrilheiros mujahidins de diversas nacionalidades, que foram apoiados por vários países ocidentais, dentre eles os Estados Unidos, o Reino Unido e outros. Os rebeldes resistiram bravamente, apoiados pelo dinheiro ocidental e um forte aparato midiático a seu favor (incluindo o filme norte-americano “Rambo III”, com o astro Sylvester Stallone, no papel de John Rambo, lutando lado a lado com os mujahidins).

A guerra durou nove anos, e os soviéticos, vendo que não poderiam vencer os afegãos, abandonaram o país em 1988, três anos antes do fim da União Soviética. A saída dos soviéticos do conflito deixou a responsabilidade de lutar contra os rebeldes apenas ao governo afegão. Depois de mais quatro anos de luta, em 1992, o país já estava completamente sob controle dos mujahidins. Contudo, o conflito reiniciaria logo depois, entre grupos rivais, prolongando a guerra civil por mais quatro anos, até que os extremistas do grupo radical Taliban prevaleceram e formaram um novo regime fundamentalista no país, tomando a capital Cabul em 1996.

Após a queda de Cabul foi formada a Frente Unida Islâmica para a Salvação do Afeganistão (ou Aliança do Norte). Naquele período, os talibãs continuaram a avançar contra a Aliança até controlar 95% do território afegão, quase destruindo a aliança.

Após os ataques de 11 de setembro de 2001, a Aliança do Norte, com apoio da coalizão liderada pelos Estados Unidos, derrubou os talibãs e estabeleceu uma nova república. Os talibãs constituíram então um movimento de resistência na porção meridional do país, sendo combatidos pelos Estados Unidos e aliados. Gradualmente as tropas dos aliados ocidentais começaram a se retirar da missão principal de combater os rebeldes islamitas e assumir uma posição de apoio as autoridades afegãs a lutar contra os jihadistas.

Em dezembro de 2014, durante o governo de Barack Obama, os norte-americanos encerraram sua participação como um dos principais protagonistas da guerra, dando ao governo local a responsabilidade de seguir com a guerra. Enquanto isso, a violência se intensificava por todo o país. Os norte-americanos vinham dando suporte a frágil República Islâmica do Afeganistão, mas com o rápido avanço dos rebeldes, principalmente os Talibãs, os Estados Unidos optaram por assinar um acordo de paz com esses últimos, em fevereiro de 2020, durante a presidência de Donald Trump, iniciando uma total retirara que seria concluída em setembro de 2021.

Entretanto, os talibãs iniciara uma nova ofensiva militar, inclusive desrespeitando o próprio acordo que haviam assinado com os Estados Unidos, e juntamente com as hesitações do novo governo norte-americano, liderado pelo Democrata Joe Biden, resultaram na antecipação da conclusão da retirada das forças norte-americanas, culminando no desastre que foi o final da retirada, concluída no dia 30 de agosto de 2021, com os rebeldes Talibãs invadindo Cabul e derrubando mais uma vez o governo afegão, se apossando de grande número de equipamentos militares fornecidos pelos Estados Unidos ao antigo regime. Mesmo após tudo isso a guerra continua e o conflito continua longe de uma solução.

A icônica imagem, que chocou o mundo, de uma helicóptero Boeing CH-47 Chinook evacuando pessoas de um telhado na embaixada norte-americana em Cabul, Afeganistão, antes da queda da cidade, tomada pelas forças do Talibã. Essa imagem tornou-se um símbolo da derrota dos Estados Unidos no conflito.

Portanto, os líderes e a opinião pública de um determinado país devem pensar várias vezes antes de se efetuar ou apoiar uma intervenção militar num país vizinho, pois as consequências poderão durar décadas e décadas sem uma efetiva solução.

IMAGEM DE CAPA: Operadores Spetsnaz avançam rumo ao Palácio Tajberg no início da operação Sthorm-333.

FONTES: Wikipédia, Associated Press, Getty Images, Quora.