Primeiro F-35 de Israel voando ao lado de um F-16. Israel foi o primeiro país a usar ambos os modelos em combate real

Praticamente todos os programas militares passam por problemas durante o processo de desenvolvimento e/ou no início da carreira junto às FFAA (Forças Armadas), e o F-35 definitivamente não é uma exceção.

Quando se fala no programa F-35, é quase inevitável algum comentário do tipo ‘isso é cheio de problemas!’. Mas como o F-35 se compara com o F-16 neste sentido, ou seja, em termos de problemas no início da carreira?

Origens do F-35

O programa F-35 deu origem a 3 caças que, apesar das semelhanças externas, são aeronaves bastante diferentes entre si, com um nível de comunalidade inferior a 30%.

Os custos iniciais eram bem elevados, mas a evolução no processo de produção e o grande número de exportações ajudaram a baixar muito os custos. Os valores unitários previstos foram obtidos neste relatório.

As versões do F-35 são:

  • F-35A CTOL (pouso e decolagem convencionais), versão para operações a partir de bases em terra. Numericamente é a versão principal do F-35, tanto para os EUA como para exportações, e tecnologicamente é a versão menos complexa, fatores que resultam no menor custo de aquisição previsto dentre as três versões, de US$ 68,1 milhões
  • F-35B STOVL (decolagem curta e pouso vertical), versão para operações a partir de NAe (navios aeródromo, ‘porta aviões’) ou de aeronaves anfíbias, tal como o Harrier e o Sea Harrier antes dele. As quantidades previstas são bem menores que as do F-35A, e o sistema de pouso vertical faz com que esta seja a versão mais complexa do programa, o que eleva o custo unitário previsto para US$ 98,4 milhões
  • F-35C CATOBAR (decolagem assistida por catapulta e pouso com cabo de arresto), versão para uso a partir dos enormes NAe nucleares da Marinha dos EUA. É mais complexo que o F-35A, mas não tanto quanto o F-35B, e é a versão com menos unidades programadas. O custo unitário previsto é de US$ 83,1 milhões

Os requisitos do programa, originalmente já muito exigentes, foram ficando cada vez mais difíceis de atender, o que exigiu várias mudanças no projeto. Entre os requisitos está a substituição de diversas aeronaves, como F-16, F-18, A-10, AMX, Tornado, Harrier, Sea Harrier e F-111.

Atender a estes requisitos exigiu a introdução de uma série de tecnologias inéditas ou relativamente pouco maduras, e muitas delas deram bastante trabalho para funcionar como esperado.

A prática usual no desenvolvimento de sistemas com muitas versões é começar pela menos complexa e a partir daí evoluir para as versões mais complexas. Isso porque eventuais dificuldades nas versões mais complexas não atrasam o programa todo. Mas nem sempre é possível fazer isso – no caso do Rafale, por exemplo, a versão mais urgente era também a mais complexa, o Rafale M capaz de operar embarcado em NAe, e isso foi origem de muitos dos atrasos do programa.

No caso do F-35 isso também aconteceu. A versão mais complexa, o F-35B era justamente a mais necessária, e a dificuldade em desenvolver a aeronave STOVL complicou ainda mais a situação, com muitos atrasos e aumentos de custos, gerando uma infinidade de críticas ao programa.

Primeiro pouso vertical de um F-35B de pré série, em 18/03/2010

Entretanto, o status atualizado do programa é que, das 13 deficiências consideradas críticas (Categoria 1 ou CAT1) ao final do programa de testes, apenas 4 permanecem ainda sem solução, e a Lockheed Martin diz que 3 delas estão bem próximas da solução. Claro, há mais de 800 deficiências ainda não resolvidas, mas a maioria delas são consideradas como sendo não críticas.

Um ponto interessante no programa F-35 é o baixo número de acidentes graves o bastante para resultar na perda da aeronave, e poucos destes acabaram envolvendo a morte do piloto. Estes números mostram que a maioria dos defeitos do F-35 se relacionam à capacidade geral de missão e não de segurança de voo.

O F-35 entrou em operação em 2015. Era um F-35B do USMC (Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos).

Como foi o começo do F-16?

Já o F-16, que hoje é considerado um dos caças de maior sucesso de todos os tempos, com mais de 4.600 unidades produzidas, o segundo caça supersônico mais produzido pelos EUA, atrás apenas do F-4 Phantom II, teve uma série de acidentes fatais no início de sua carreira, que por pouco não resultaram no cancelamento do programa.

Assim como o F-35, o F-16 também introduziu muitas tecnologias inéditas ou pouco maduras, e muitas delas foram diretamente responsáveis pelas mortes de pilotos.

Esta propensão a acidentes já foi até foco de um filme de 1992, Afterburn (Voo Rasante, no Brasil), que é baseado em fatos reais, que relata a história do acidente fatal com um F-16 baseado na Coreia do Sul, pilotado pelo Capitão Theodore Harduvell, em 16/11/1982. O filme contou a saga do acidente e de um processo judicial movido pela viúva de Harduvell, que ela venceu em primeira instância (o que é relatado no filme) mas acabou perdendo nas instâncias superiores.

Capa do filme ‘Voo rasante’

Esta pequena tabela compara as duas aeronaves no início da carreira. Para efeitos de comparação, vamos usar um intervalo de 5 anos desde a introdução da aeronave em serviço nos EUA, e vamos considerar apenas os acidentes que resultaram em perda total da aeronave, destacando quais acabaram matando os pilotos. O acidente do Capt Harduvell é um deles.

F-16F-35
Acidentes624
Fatalidades241

Este elevado número de acidentes fizeram com que o F-16 ganhasse o apelido de ‘lawn dart’, aludindo a um brinquedo popular nos EUA na época.

Lawn darts, brinquedo banido nos EUA depois de um acidente fatal

Mas então por quê o F-35 tem essa péssima fama, e o F-16 não?

Dois motivos vêm à mente.

O primeiro é que o F-16 entrou em serviço em 1978, numa época em que não existia Internet, portanto a divulgação de notícias era muito mais lenta do que hoje; as dificuldades iniciais foram superadas e o F-16 atualmente é considerado um dos caças mais eficientes do mundo.

Já o F-35 entrou em serviço em 2015, e todas as notícias do programa foram amplamente divulgadas na Internet desde o início. Muitas das ‘análises’ referentes ao F-35 são baseados em pouco ou nada além da opinião de leigos, que frequentemente têm pouco conhecimento de como funcionam programas militares em geral, e do programa F-35 em particular, portanto estas ‘análises’ geralmente são muito superficiais e desprovidas de contexto.

Outro motivo importante é o custo do programa F-35, que pode passar de 1 trilhão de dólares, portanto é natural que haja uma grande atenção a tudo que se refere a ele.

Entretanto, deve-se lembrar que os custos do programa incluem o desenvolvimento de três aviões praticamente distintos entre si, além da operação regular da aeronave, com peças de reposição e etc (excluídas as armas).

Incluir os custos operacionais no orçamento de desenvolvimento é algo inédito na aviação militar, portanto não é simples fazer quaisquer comparações de custos entre o programa F-35 e outros programas de caças.

Dados dos EUA mostram que o custo de aquisição e operação do F-35 já são comparáveis ou melhores que os de caças legado como F-16 e F-18, o que tem ajudado muito a fechar diversas vendas do modelo ao redor do mundo, com as últimas confirmadas para Suíça e Finlândia, além do interesse de diversos países, mostrando assim que boa parte das críticas têm pouco ou nenhum fundamento atualmente.

Conclusão

Se alguém for se basear apenas em ‘análises’ disponíveis na Internet, o F-35 é uma ‘jaca’ prestes a ser cancelada, mas o mundo real pinta outro quadro.

Conforme um relatório de janeiro de 2022, os EUA pretendem adquirir quase 2.500 unidades do F-35 das três versões, e já se confirmaram quase 900 vendas a clientes estrangeiros, números muito superiores aos de qualquer caça depois do F-16. O F-35 ainda é muito bem cotado em competições em andamento ao redor do mundo, e muitos países já demonstraram interesse no caça.

A título de comparação, o Rafale tem 470 unidades confirmadas (192 domésticas, 278 de exportação) e o Eurofighter tem 643 unidades confirmadas (distribuídas entre os 4 países do consórcio e exportações). E ambos entraram em operação bem antes do F-35 (Rafale: 2001; Eurofighter: 2003). Só de entregas o F-35 já ultrapassou 760 unidades!

Um elemento de Rafale voando em formação com um elemento de Eurofighter

Além do grande número de encomendas, muitos clientes do F-35 já estão considerando a possibilidade de adquirir novos lotes, como Israel e Japão, e os relatos de ações reais com os F-35 estão sendo muito positivos, o que aponta para um futuro brilhante após uma infância complicada.

Referências