Um dos drones mais letais do mundo, o General Atomics MQ-9 Reaper, operando pela Força Aérea dos Estados Unidos (USAF). (Foto: USAF)

Na madrugada de sábado, 14/09/2019, duas instalações petrolíferas da ARAMCO da Arábia Saudita foram atacadas, causando grandes estragos na capacidade produtiva do país. As instalações foram atacadas por um grande número de drones e/ou mísseis de cruzeiro, e os estragos foram bastante intensos.

Ao invés de debater sobre a origem dos ataques, e suas consequências, neste artigo vamos focar nos meios utilizados: drones e mísseis de cruzeiro.

Primeiramente, vamos destacar que conhecemos bem os termos técnicos VANT (Veículos Aéreos Não Tripulados) e SARP (Sistemas Aéreos Remotamente Pilotados) utilizados pela FAB (Força Aérea Brasileira) e RPA (Aeronaves Remotamente Pilotadas), usado pela USAF (Força Aérea dos EUA), além de outros, mas vamos utilizar aqui o termo ‘drone’, por ser o mais conhecido do público em geral.

Em segundo lugar, pode-se classificar os mísseis de cruzeiro como uma categoria especial de ‘drones kamikaze’, ou seja, drones cuja função é ‘suicídio ao atacar o alvo’, e destacar que muitas das características de drones e mísseis de cruzeiro se confundem, portanto é possível tratar ambos na mesma discussão. Apenas a título de definição, ao falar de ‘mísseis de cruzeiro’ aqui, estamos nos referindo a mísseis que voam, exclusivamente, dentro da atmosfera, e que seguem uma trajetória não-balística.

Por fim, e mais importante, este evento é apenas mais um lembrete de como o uso de drones e mísseis de cruzeiro, até por atores sem as capacidades de um Estado, tem a capacidade de complicar imensamente qualquer planejamento defensivo.

ORIGENS DOS DRONES E MÍSSEIS DE CRUZEIRO

Pode não parecer, mas os drones e mísseis de cruzeiro não são invenções novas, e na verdade foram usados antes da invenção dos aviões mais pesados que o ar!

Em 1849, durante um cerco austríaco a Veneza, o ‘porta balões’ SMS Vulcano, um dos precursores dos modernos NAe (navios aeródromos, ‘porta-aviões’), utilizou balões de papel (similares aos balões de São João) para lançar pequenas bombas incendiárias de 12-15 kg sobre a cidade, numa ação que, provavelmente, foi o primeiro uso ofensivo do poder aéreo embarcado na história.

Embora algumas bombas tenham de fato atingido a cidade, a imprevisibilidade dos ventos frustrou o ataque, sendo que alguns dos balões quase atingiram o próprio Vulcano! Claro que tais balões não eram pilotados, mas mostram claramente o potencial de pequenas aeronaves / mísseis na função de ataque.

SMS Vulcano, ‘porta balões’ austríaco usado no primeiro uso militar de ‘mísseis de cruzeiro’ da história

Na Primeira e na Segunda Guerra Mundial foi tentado o uso de ‘drones suicidas’, inicialmente baseados em alvos aéreos controlados por rádio, mas a tecnologia da época não era madura o suficiente. Os EUA trabalharam bastante no conceito, mas sem sucesso na época.

A futura Marilyn Monroe (ainda conhecida pelo seu nome de batismo, Norma Jeane Mortenson) trabalhou na fábrica Radioplane, que produziu cerca de 15 mil drones para uso como alvos na Segunda Guerra Mundial; alguns destes drones foram testados para usos como ‘torpedos aéreos’, mas não foram usadas antes do final da Guerra
O ‘Ketterig Bug’ foi considerado pronto em 1918, mas a Primeira Guerra Mundial terminou antes que pudesse ser usado em combate real

Nas Operações Afrodite (Força Aérea do Exército) e Bigorna (Marinha), os EUA utilizaram bombardeiros B-17 e B-24 convertidos para uso como ‘torpedos aéreos’ gigantes, mas o sucesso foi praticamente nulo. Houve muitas mortes dos envolvidos nos testes, entre eles o Tenente Joseph P. Kennedy, Jr., irmão mais velho do futuro presidente John Kennedy.

Os experimentos de outros países, como a Alemanha e a Inglaterra, também obtiveram resultado praticamente nulo.

O maior sucesso neste sentido, sem sombra de dúvida, o míssil de cruzeiro nazista Fieseler Fi-103, a famosa ‘bomba voadora’ V-1, que é considerado por muitos como o primeiro míssil de cruzeiro realmente bem sucedido da história.

V-1 sendo preparado para lançamento
Comparação entre a Blitz e as V-1BlitzV-1
1. Custos para a Alemanha
Surtidas90,0008,025
Tonelagem de bombas61,14914,600
Toneladas de combustível71,7004,681
Aeronaves perdidas3,0750
Tripulantes perdidos7,6900
2. Resultados
Estruturas atingidas1,150,0001,127,000
Vítimas92,56622,892
Fatalidades/tonelada de bombas1.61.6
3. Esforço aéreo Aliado
Surtidas86,80044,770
Aeronaves perdidas1,260351
Tripulantes perdidos2,233805

Apesar de relativamente primitivos, os V-1 foram extremamente eficientes em combate – veja no exemplo abaixo a comparação entre os estragos causados à Inglaterra durante os ataques da Blitz (12 meses) e os V-1 (menos de 3 meses).

Depois da Segunda Guerra, outros países começaram a desenvolver drones (tanto para uso em treinamento quanto para reconhecimento), e os resultados mais visíveis aparecem na Guerra do Vietnã. Os EUA usaram vários drones naquela guerra, principalmente para reconhecimento.

Drones da família Ryan BQM-34 Firebee sob a asa de um DC-130 Hercules. Os Firebee foram utilizados tanto como alvos como para reconhecimento

Já na Guerra do Yom Kippur, em 1973, Israel utilizou os Firebee para uma função mais ofensiva – servir de ‘isca’ para as defesas árabes, ajudando no esforço global de SEAD / DEAD (Supressão / Eliminação de Defesas Aéreas Inimigas), e a experiência adquirida foi essencial para que Israel se tornasse um dos maiores desenvolvedores e utilizadores de drones em missões de combate.

Desde então, os drones evoluíram consideravelmente, e além das missões ‘suicidas’, de reconhecimento, de ‘isca’ e de alvos, aos poucos os drones em si começaram a carregar armas. Um dos exemplos mais conhecidos de drones armados é o General Atomic MQ-1 Predator, dos EUA. O uso de satélites de comunicações permite que drones como o Predator sejam controlados a milhares de km de distância dos alvos.

Drone Ryan RQ-1 Predator armado com mísseis Hellfire

O exemplo mais recente do uso de drones em larga escala foi no conflito entre Armênia e Azerbaijão; os drones azeris causaram enormes estragos nas forças armênias.

Enquanto drones cada vez mais sofisticados e caros entram em serviço e estão sendo desenvolvidos ao redor do mundo, a grande proliferação de drones ‘tipo DJI’ no meio civil abriu possibilidades no uso de pequenos drones suicidas e/ou drones simples armados com granadas.

Drone ‘tipo DJI’ carregando duas granadas (ARIS MESSINIS/AFP/Getty Images)

Não é preciso ser nenhum especialista para perceber que até mesmo drones simples podem causar um grande estrago a um custo relativamente baixo, como por exemplo nos fechamentos de diversos aeroportos em tempos recentes.

A vantagem dos ‘drones tipo DJI’ é que são extremamente baratos e passíveis de uso em grandes quantidades, mas a desvantagem é que são muito pouco resistentes a contra-ataques, tanto fisicamente quanto eletronicamente.

Em 31 de dezembro de 2017, guerrilheiros atacaram a base de Khmeimim, causando a destruição de quatro bombardeiros Su-24, além de dois caças Su-35S e um transporte An-72; é possível que outras aeronaves tenham sido destruídas, com algumas fontes apontando até doze baixas. Embora a Rússia não libere muitas informações, parece que o ataque foi realizado com o uso de ‘drones DJI’.

Chama a atenção que a base de Khmeimim é guardada por uma bateria de mísseis S-400, considerados como alguns dos melhores do mundo, mas ainda assim não conseguiram proteger a base.

Este ataque, bem como o feito contra a ARAMCO, mostram como é difícil se defender de tais ataques, mesmo utilizando os melhores sistemas americanos ou russos.

MÍSSEIS DE CRUZEIRO

Os mísseis de cruzeiro são, basicamente, drones suicidas mais sofisticados e que geralmente seguem um voo pré-determinado, ao invés de serem pilotados remotamente (há exceções, claro). Passaram a ser bastante utilizados a partir da Guerra do Vietnã (mísseis com alcance de poucos km) e, a partir da Guerra do Golfo da década de 1990, começaram a ser utilizados mísseis com alcances de milhares de km.

BGM-109 Tomahawk, míssil de cruzeiro americano com alcance de mais de 2000 km

De modo geral, qualquer país capaz de desenvolver aeronaves também terá a capacidade para desenvolver mísseis de cruzeiro. A recente disponibilidade de sensores como giroscópios, navegação inercial e GPS para usos comerciais acabou por favorecer os países que querem fabricar tais armas, e países como o Irã, que há pouco mais de 20 anos seria considerado incapaz nesta área já são capazes de fabricar sistemas bastante modernos.

Hoveyzeh, um dos mísseis de cruzeiro iranianos da classe Soumar / Quds, cujo alcance máximo excede os 1350 km. Há fortes suspeitas que tenha sido obtido a partir de engenharia reversa de mísseis Kh-55 dos tempos soviéticos (equivalentes ao Tomahawk), vendidos ao Irã pela Ucrânia. Há indícios que mísseis como estes foram usados nos ataques à ARAMCO

Ataques com dezenas, ou mesmo centenas de mísseis de cruzeiro, foram usados por EUA e Aliados em várias ocasiões, por exemplo contra a Síria em retaliação ao suspeito uso de armas químicas.

COMO SE DEFENDER DE DRONES E MÍSSEIS DE CRUZEIRO?

Como o uso dos V-1 na Segunda Guerra e de drones na Guerra ao Terror demonstram, e o ataque à ARAMCO relembra, não é nada fácil defender-se de ataques de drones / mísseis de cruzeiro bem coordenados e executados.

A curvatura da Terra limita bastante o alcance de detecção de tais engenhos. Como o sistema de guiagem das V-1 era bastante primitivo, os mísseis tinham que voar em linha reta e a altitudes entre 600 e 900 m, permitindo que radares baseados em terra os detectassem a mais de 100 km de distância, dando um tempo razoável para as defesas atuarem.

Porém, com as tecnologias atuais de guiagem, mísseis de cruzeiro modernos podem voar a altitudes inferiores a 50 m, o que resulta em alcances de detecção inferiores a 50 km. Para complicar ainda mais o trabalho da defesa, em altitudes tão baixas os mísseis acabam por passar entre montanhas e prédios, o que os mascara ainda mais. Fora isso, como os mísseis podem voar através de pontos pré-programados, fazendo manobras e seguindo por rotas aparentemente ilógicas, é muito difícil prever qual alvo o míssil vai atacar, o que dificulta bastante não apenas posicionamento das defesas, mas também sua coordenação.

No caso específico da ARAMCO (e de outras instalações petrolíferas), deve-se lembrar também que os próprios projéteis das defesas antiaéreas podem causar ou aumentar os incêndios, o que complica mais ainda a defesa.

Outro ponto a favor de drones e mísseis de cruzeiro é que, devido ao fato de voarem a velocidades relativamente reduzidas, eles podem ser feitos de materiais plásticos, que por sua natureza são maus refletores de ondas de rádio, reduzindo ainda mais o alcance de detecção.

Por fim, e provavelmente ainda mais importante, drones e mísseis de cruzeiro podem ser bastante baratos em comparação aos seus alvos. Voltando ao caso da ARAMCO, é provável que os alvos tenham sido atacados por dezenas ou mesmo centenas de armas, mas é quase certo que os estragos causados foram de centenas de milhões, ou mesmo de bilhões de dólares, o que significa que, em muitos casos, o custo-benefício favorece bastante o atacante.

CONCLUSÃO

Esta análise, bastante superficial, indica que drones e mísseis de cruzeiro já são uma grande dor de cabeça para qualquer comandante militar incumbido de proteger instalações sensíveis, e a tendência é que o problema se complique cada vez mais.

A maior lição a ser tirada dos ataques contra a ARAMCO é que não se pode mais ignorar o uso de drones e mísseis de cruzeiro, nem mesmo por parte de players menores que Estados, como os Houthis, Hamas e Hizballah.

Outra lição importante é que Forças Armadas modernas não precisam apenas de bons equipamentos, mas também de bom treinamento e bom planejamento. As FFAA sauditas estão entre as mais bem equipadas do mundo, mas já é bem evidente que os sauditas não estão conseguindo extrair o melhor de tais equipamentos.

FONTES:

https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_unmanned_aerial_vehicles

https://en.wikipedia.org/wiki/Unmanned_combat_aerial_vehicle

https://www.popularmechanics.com/military/aviation/a28312/wwii-drone-strike-tdr-1/

https://paleofuture.gizmodo.com/the-tv-guided-drones-of-world-war-ii-1560130671

https://nationalinterest.org/print/blog/the-buzz/fact-america-was-experimenting-suicide-drones-world-war-ii-23242

https://www.warhistoryonline.com/military-vehicle-news/short-history-drones-b.html

http://www.atinitonews.com/2019/09/drones-spark-fires-at-two-saudi-aramco-oil-facilities/

https://www.defensenews.com/digital-show-dailies/space-symposium/2017/04/05/stratcom-issues-guidance-for-anti-drone-measures-near-nuclear-sites/

http://www.atinitonews.com/2019/09/drones-spark-fires-at-two-saudi-aramco-oil-facilities/

Por Renato Henrique Marçal de Oliveira – Editor do Canal Militarizando e Autor. Químico e trabalha na Embrapa com pesquisas sobre gases de efeito estufa. Entusiasta e estudioso de assuntos militares desde os dez anos de idade, escreve principalmente sobre armas leves, aviação militar e as IDF (Forças de Defesa de Israel).

E-mail: renato.oliveira@canalmilitarizando.com