A Força Aérea Brasileira (FAB) operou e ainda opera excelentes e icônicas aeronaves, como exemplos podemos citar o Curtiss P-40 Warhawk, o Republic P-47 Thunderbolt, o North American B-25 Mitchell e mais recentemente o Lockheed C-130 Hercules, Dassault Mirage III, o Northorp F-5E/F Tiger II, dentre outras. Entretanto, algumas famosas aeronaves que a FAB desejou operar em sua frota não foram adquiridas, por diferentes motivos. Vamos falar de algumas dessas aeronaves nesse artigo.

North American F-86 Sabre

Um North American F-86 Sabre em voo, nas cores da Força Aérea dos EUA (USAF) durante a Guerra da Coreia.

O lendário caça protagonista dos “Dogfights a Jato” contra o Mikoyan-Guerevich MiG-15 na Guerra da Coreia foi sondado para reequipar a Aviação de Caça da FAB, que ainda operava os obsoletos P-40 e P-47, no início da década de 1950. Com a recusa de Getúlio Vargas em enviar tropas para a Coreia para lutar sob a bandeira da Organização das Nações Unidas (ONU), mas liderados pelos norte-americanos, a compra dos Sabres foi barrada, pois a North American Aviation alegou prioridade para a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) para o recebimento da aeronave em virtude do conflito na Península Coreana. Como “prêmio de consolação” a FAB adquiriu da Inglaterra em 1953 um lote de caças Gloster Meteor Mk.8/TMk.7 (chamados de “F-8” e “TF-7” na FAB).

English Electric Canberra

Um protótipo do English Electric Canberra em voo.

O bombardeiro a reação de origem britânica seria um ótimo substituto para os já cansados North American B-25 Mitchell, no final da década de 1950, mas como a compra não foi concretizada por falta de fundos, a solução foi adquirir um lote de aeronaves Douglas B-26 Invader dos Estados Unidos, que também eram da época da Segunda Guerra Mundial, mas bem mais novas do que o B-25.

McDonnell Douglas F-4 Phantom II

Um McDonnell Douglas F-4C Phantom II nas cores da USAF em voo.

O então moderno caça multifunção de origem norte-americana, em sua versão F-4C, seria ideal para reequipar a FAB em meados da década de 1960, principalmente com a implantação do Sistema de Defesa Aéreo Brasileiro (SISDABRA), mas o Departamento de Defesa (DoD) dos EUA vetou a sua compra devido a alta tecnologia e a complexidade da aeronave para a América Latina*.A FAB então adquiriu um lote do interceptador francês Dassault Mirage IIIEBR/DBR (chamados no Brasil de “F-103E” e “F-103D”, respectivamente).

Northrop F-5A/B Freedom Fighter

Um Northrop F-5A que pertenceu a Força Aérea da Grécia em voo, em meados da década de 1980.

O pequeno caça tático norte-americano estava previsto para equipar a FAB a partir de meados da década de 1960 (o Plano Diretor da FAB para 1966 previa a aeronave operacional para esse ano). Por razões financeiras e de prioridades operacionais (a FAB preferiu reequipar a Aviação de Transporte com a compra do Lockheed C-130 Hercules e o de Havilland Canada C-115 Buffalo) a FAB cancelou a compra. Devido a prematura desativação dos F-8/TF-7, foi adquirido em caráter emergencial um lote da versão armada do treinador a jato Lockheed T-33 Shooting Star, o AT-33A-20-LO. O F-5 só seria adquirido pela FAB em 1973, quando foram compradas 36 caças da versão F-5E Tiger II e seis F-5B, pois ainda não existia a versão F-5F, que foi adquirida anos depois.

Shenyang J-7M (F-7M) Airguard

Acima um Shenyang F-7M Airguard da Força Aérea do Paquistão; a versão chinesa do MiG-21 foi vendida para 15 países.

Em 1987 a FAB negociou a compra de um lote da versão chinesa da aeronave Mikoyan-Guerevich MiG-21 “Fishbed”, o Shenyang J-7, na versão ocidentalizada F-7M Airguard, devido a recusa do governo norte-americano de fornecer mais um lote do caça Northrop F-5E Tiger II (pois não haviam unidades disponíveis das unidades agressoras para venda) e adquirir a versão de treinamento de dois lugares F-5F, já que a FAB operava a versão F-5B, totalmente inadequada para a função. Cerca de 30 aeronaves (monoplaces e biplaces) seriam adquiridas pela Força Aérea Brasileira, e parte do negócio envolveria a fabricação sob licença das aeronaves Embraer 120 Brasília e Embraer 312 Tucano na China. Entretanto o negócio não evoluiu porque subitamente a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) resolveu desativar alguns F-5 agressores e, com a disponibilidade do modelo, a FAB optou por adquirir 22 células do F-5E e quatro do F-5F em 1988.

IAI Kfir C.10

Protótipo do IAI Kfir C.10 nas cores da Força Aérea Israelense (IDF/AF).

No dia 31 de julho de 2004 a Força Aérea Brasileira (FAB) definiu a aquisição de 36 caças Israel Aircraft Industries (IAI) Kfir C.10 para substituir os veteranos Dassault Mirage IIIEBR/DBR, em operação desde 1972. Seriam distribuídos inicialmente ao 1° Grupo de Defesa Aérea (1° GDA).

Para dar rapidez ao contrato a FAB optou pelo leasing dos caças pagando com o seu orçamento sem precisar aprovação de verba extraordinária pelo Legislativo. O Brasil teria prioridade caso quisesse comprar as células no final do Leasing. A FAB escolheu o Kfir C.10 porque ele possuía tecnologia de 4ª geração e estaria disponível em poucos meses.

As células escolhidas pela IAI para a FAB eram praticamente novas e foram pouco voadas por Israel. Havia cerca de 220 células do Kfir C.7 estocadas pela Força Aérea Israelense, a maioria haviam sido fabricadas entre 1985 a 1990.

Em 1991 os Estados Unidos forneceram cerca de 120 caças Lockheed Martin F-16C/D Fighting Falcon a Israel como um prêmio por não ter retaliado ataques de mísseis Scud por parte do Iraque durante a Guerra do Golfo no mesmo ano.

Israel então com uma gigantesca frota de caças F-16 decidiu estocar todos os Kfir. O Kfir da FAB viria com o poderoso radar Elta EL/M 2032 com 140 km de alcance. Viria também com displays fabricados pela Elbit semelhantes ao do então recém-incorporado Embraer A-29 Super Tucano o que facilitaria a logística da FAB, além de capacetes Dash com HMD.

Estava previsto o mesmo armamento para o futuro caça modernizado Northrop/Embraer/Elbit F-5EM/FM Tiger II, que consistia em Mísseis WVR Python IV/V e BVR Derby, além das mais modernas armas ar solo israelenses.

Israel reservou 36 células para a FAB de forma exclusiva, seriam 24 para uso operacional e 12 que seriam estocadas para repor perdas operacionais ou eventuais fadigas das células. Em certos aspectos o C.10 era muito mais poderoso que o F-5E, ganhava na relação empuxo/peso, era capaz de manter mais energia que F-5E nas manobras, o capacete com HMD DASH + Python V anularia qualquer tipo de desvantagem em manobrabilidade contra caças capaz de puxar 9Gs.

Os Kfir viriam com motores de origem norte-americana General Electric GE J79-iF fabricados sob licença em Israel. Para guerra eletrônica ele viria com a suíte ECM Elta L-8230 e poderia reforçar sua já poderosa capacidade de ECM com um pod Elta EL-L8202.

Tanto a IAI como a FAB comemoraram o acordo. Porém uma misteriosa reviravolta ocorreu e o então presidente Lula vetou a negociação e cancelou o Leasing do Kfir C.10. Posteriormente anunciou a aquisição de 12 velhos e cansados, apesar de ainda poderoso, caças Dassault Mirage 2000C/B que entraram em serviço pela França em 1984 e com pouca vida útil pela frente.

Na época o vice-presidente José Alencar ainda tentou defender a posição da FAB junto ao presidente Lula que se mostrou irredutível na decisão. Alencar tentou salvar também a compra de 24 aeronaves AMX International AMX ATA (para serem usados como LIFT) para a FAB porém o presidente também vetou a compra o que encerrou de vez o projeto AMX. Assim a FAB viu virar fumaça a aquisição de um dos mais poderosos caças que poderia ter tido até a chegada do Saab Gripen NG (F-39E/F).

NOTA 1: O Kfir com apoio de AWACS teria uma vantagem decisiva no cenário sul americano.
NOTA 2: A FAB posteriormente diminuiu a quantidade dos Kfir C.10 para apenas 12 aeronaves para sensibilizar o governo porém não deu certo.

Arte mostrando o caça IAI Kfir C.10 nas cores da FAB.

E o F-16?

o F-16 venceu a concorrência no Chile em 2000. Aviões poderiam ter sido construídos no Brasil e operados pela FAB.

Muitos entusiastas consideram que a FAB deveria ter adquirido um lote do famoso caça General Dynamics (hoje Lockheed Martin) F-16 Fighting Falcon, e até mesmo pensam que a força aérea desejou essa aeronave, mas a história não foi bem assim. A Força Aérea Brasileira, de fato, nunca desejou o F-16, apesar de ter tido dois momentos cruciais em que ele poderia ter adquirido.

O primeiro momento foi na década de 1990, quando da concorrência F-X1 para se escolher o substituto dos ultrapassados interceptadores supersônicos de origem francesa Dassault Mirage IIIEBD/DBR, mas a versão oferecida pelos Estados Unidos (F-16C Block 50/52) não foi escolhida, pois, segundo fontes, a preferência da FAB seria o mais moderno Saab JAS 39 Gripen CD. Essa concorrência foi cancelada em 2003, após sucessivos atrasos em sua divulgação.

O segundo momento foi cerca de dez anos depois do fim do F-X1, quando a FAB já havia desativado os Mirage III e estava para desativar o seu caça-tampão, o também francês Dassault Mirage 2000C/B (que foram adquiridos em 2006 e o contrato de manutenção dessas aeronaves vencia no final de 2013). a FAB já tinha lançado a nova concorrência F-X2, para novamente escolher um novo caça para a força, mas convivendo com sucessivos atrasos no programa, a FAB então cogitou a possibilidade de um novo caça-tampão.

Esse novo caça-tampão seria um lote de aeronaves Lockheed Martin F-16C/D Block 40/42, os chamados “Desert Falcons”, pois essa versão surgiu no final da década de 1980 e a Força Aérea dos Estados Unidos (USAF) operou com bastante sucesso na Guerra do Golfo de 1991. Segundo o site “Poder Aéreo”, a FAB teria o desejo de adquirir de 12 a 24 unidades dessas aeronaves, que na época estavam estocadas no Deserto do Arizona, e ainda em excelentes condições. Pilotos da FAB poderiam ter voado essas aeronaves em voos de teste, mas essa ideia foi abandonada e no final de 2013 o vencedor do Programa F-X2 foi declarado: o novo caça Saab Gripen NG, depois E/F, no qual a FAB finalmente começará a operar nesse ano de 2022, recebendo no primeiro lote 36 unidades (28 modelos de um lugar F-39E e seis modelos F-39F de dois lugares).

O Saab F-39E Gripen FAB 4101. As primeiras aeronaves entrarão em operação na FAB ainda em 2022.

NOTA DO CANAL MILITARIZANDO: A falta de interesse da FAB pelo F-16 ao longo dos anos, salvo esses dois momentos acima descritos, segundo algumas fontes ouvidas pelo Canal Militarizando, residem principalmente na baixa altura da tomada de ar da aeronave, que segundo essas fontes consultadas, é bastante suscetível a FOD (Foreign Object Debris or Damage), ou seja, a ingestão de objetos estranhos no motor da aeronave, fato muito comum visto na Aviação Civil.

O longo desenvolvimento e a compra das aeronaves de ataque ítalo-brasileiras AMX foi visto com ironia por muitos oficiais da FAB, que chamavam a aeronave jocosamente de “F-32”, pois na época seus custos de desenvolvimento, fabricação e compra, eram equivalentes ao dobro de se adquirir um F-16 “de prateleira” (apesar dessa possibilidade nos anos 80 ser muito difícil pois o F-16 foi por anos vetado para a maior parte da América Latina pelo governo de Ronald Reagan).

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FONTES: Com informações da Wikipédia, site “Poder Aéreo”, site “Airway”, Facebook e Instagram do Canal Militarizando.