A HISTÓRIA DO FIAT G.91 NA FAP

Necessitando de um avião de apoio aéreo aproximado para ser usado nos territórios ultramarinos africanos, já que os Estados Unidos proibiam o uso naquele continente do North American F-86 Sabre e não haviam muitas unidades disponíveis do já obsoleto Republic F-84 Thunderjet, Portugal adquiriu em 1966 à então Alemanha Ocidental 40 aeronaves FIAT G.91R/4 do lote inicial de 50 células destinadas a Grécia e a Turquia, mas recusadas por ambos os países. Parte do negócio é uma contrapartida pela cessão de instalações para treino das tripulações alemães na Base Aérea de Beja. Neste lote de 40 unidades está incluído o primeiro G.91R/4 fornecido para a Força Aérea Grega e que foi devolvido pelos gregos, tendo-se tornado também o primeiro a entrar em serviço na Força Aérea Portuguesa (FAP) com o número de cauda 5401, os restantes seguiram a numeração até 5440.

O Fiat G.91 R/4 FAP 5414.

No verão de 1974 a Alemanha Ocidental ofereceu a Portugal a preços de baixo custo a possibilidade de compra de vários T/3 e R/3 desativados pela Luftwaffe (a então Força Aérea da Alemanha Ocidental), sendo entregues entre 1976 e 1982 tendo sido adquiridos 96 aeronaves dos dois tipos, mas apenas 33 R/3 e 11 T/3 foram usados pela FAP, os restantes foram, ou canibalizados como fonte de peças de reposição, ou serviram como alvos, ou ainda como bancada de testes e treino em diversas unidades da FAP. Os R/3 foram matriculados com os números de cauda 5441 a 5473 e os T/3 de 1801 a 1811.

O Fiat G.91 R/3 FAP 5462.

Com o incremento de aeronaves disponíveis foram formadas duas esquadras:

  • Esquadra 301 “Jaguares”, sediada na Base Aérea nº 6 (BA6) em Montijo, compostos pelos modelos G.91R/3 e G.91T/3;
  • Esquadra 303 “Tigres”, sediada na Base Aérea nº 4 (BA4) nos Açores, compostos pelos modelos G.91R/4 e G.91T/3.
O Fiat G.91 T/3 FAP 1801. Ao fundo aeronaves Northrop T-38 Talon da FAP. (Foto: Pássaro de Ferro)

Em 1980 e 1985 aviões FIAT G.91R/3 da Esquadra 301 “Jaguares” ganharam o prêmio de prata da reunião anual dos esquadrões “Tiger” dos países pertencentes à OTAN, que premia o vencedor da competição “Tigermeet”, lutando contra oponentes como o McDonnell Douglas F-4 Phantom II, General Dynamics F-16 Fighting Falcon, Dassault Mirage F1 e Grumman F-111 Aardvark. Finalmente a 15 de Junho de 1993 realiza-se o último voo oficial, após mais de 75.000 horas de voo ao longo de agitados 27 anos de operação.

O ENVOLVIMENTO OPERACIONAL DO “GINA” NA GUERRA COLONIAL PORTUGUESA, OU GUERRA DO ULTRAMAR (1966-1975)

Um “Gina” da FAP sobrevoando algum lugar da Guiné, em meados de 1968.

Guiné-Bissau

Em Março de 1966, foram enviados para a África oito FIAT G.91R/4 que iriam constituir a Esquadra 21 “Tigres” na Base Aérea N° 12 em Bissalanca, na então Guiné Portuguesa, a qual se tornou operacional em finais de Junho do mesmo ano. Regressaram a Portugal em 1974, após mais de 14.000 horas de voo em missões de combate, com um saldo de um piloto perdido e sete aeronaves abatidas, a maioria pelo míssil antiaéreo portátil (MANPADS) de origem soviética 9K32 Strela-2 (designação OTAN: SA-7 “Grail”):

  • 22 de Fevereiro de 1967 – Fiat G.91R/4 “5407”, pilotado pelo Major Armando Augusto dos Santos Moreira (Comandante da Esq. 121). Devido à explosão prematura de uma bomba.
  • 28 de Julho de 1968 – Fiat G.91R/4 “5411”, pilotado pelo Tenente-coronel Francisco da Costa Gomes (Comandante do Grupo Operacional 1201), devido a disparos de AA 12,7 mm próximo a zona de fronteira com a Guiné-Conakry.
  • 25 de Março de 1973 – Fiat G.91R/4 “5413”, pilotado pelo Tenente Miguel Cassola Cardoso Pessoa, abatido por um míssil SA-7 “Grail”.
  • 28 de Março de 1973 – Fiat G.91R/4 “5419”, pilotado pelo Tenente-coronel José Fernando de Almeida Brito (Comandante do Grupo Operacional 1201) abatido e morto por um míssil SA-7 “Grail”.
  • 1º de Setembro de 1973 – Fiat G.91R/4 “5416”, pilotado pelo Capitão Carlos Augusto Wanzeller, devido a problemas mecânicos.
  • 4 de Outubro de 1973 – Fiat G.91R/4 “5409”, pilotado pelo Capitão Alberto Roxo da Cruz, devido a falha mecânica.
  • 31 de Janeiro de 1974 – Fiat G.91R/4 “5437”, pilotado pelo Tenente Victor Manuel Castro Gil, abatido por um míssil SA-7 “Grail”.
Aeronaves Fiat G.91 armadas com bombas de fragmentação em Bissalanca em 1969 (Acima). Os destroços do Fiat G.91R/4 FAP5419, abatido por um SA-7 no dia 28/03/1973 (Abaixo).
Notícia de um jornal português sobre o abate do 5419.

Moçambique

Entre Novembro de 1968 e Abril de 1960 ficam operacionais os oito primeiros Fiat G.91R/4 na Base Aérea N° 10 (BA10) na Beira com destino ao Aeródromo Base Nº5 (AB5) em Tete integrados na recém formada Esquadra 502 “Jaguares”, em Julho de 1970 chegam à Base Aérea N° 10 (BA10) na Beira os primeiros dois de um total de oito (que chegarão faseados até ao final do ano), para integrar a Esquadra 702 “Escorpiões” criada em Setembro de 1970 e destinada a operar a partir do Aeródromo Base Nº5 (AB5) em Nacala. Ambas as esquadras usavam destacamentos em Nampula no Aeródromo de Manobra 52 (AM52), em Porto Amélia e no Aeródromo de Manobra 51 (AM51) em Mueda, para além de outros destacamentos não permanentes no Aeródromo Base N° 6 (AB6) Nova Freixo, Aeródromo de Manobra 61 (AM61) Vila Cabral.

A partir de 1973 as forças da Frelimo são equipadas com o míssil SA-7 “Grail”, o que obriga os pilotos portugueses a serem mais cautelosos no planejamento das missões. O único Fiat G.91R/4 perdido foi o 5429 da Esquadra 502, pilotado pelo Tenente Emílio Lourenço, devido à explosão prematura de uma das bombas que transportava.

Em 1974, após a Revolução dos Cravos em Portugal, os Fiat G.91 começam a abandonar Moçambique de regresso à Base Aérea N° 6 (BA6) em Montijo.

Aeronaves Fiat G.91R/4 da Esquadra 702 da FAP no aeroporto de Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, em data ignorada.

Angola

De regresso a Portugal no final de 1974 alguns Fiat G.91R/4 oriundos das Esquadras 502 e 702 que operaram em Moçambique, foram desviados para Base Aéra N° 9 (BA9) em Luanda, onde substituíram os Republic F-84G Thunderjet na Esquadra 93 “Magníficos”, antevendo uma possível guerra civil. Foram retirados em Janeiro do ano seguinte, tendo efetuado apenas uma missão de combate, contra forças que lutavam pela libertação do enclave de Cabinda.

Segundo fontes, de dois a quatro aeronaves G.91 R/4 foram abandonados pelos portugueses em Luanda e acabaram se tornando o embrião da futura Força Aérea Angolana, supostamente tendo operado no país até 1982, sendo que as autoridades portuguesas da época desmentem tal informação e alegam que todos os “Gina” que estavam na antiga colônia retornaram a Portugal.

Suposta imagem do esquema de pintura de um dos Fiat G.91 R/4 que foi incorporado a Força Aérea Angolana após Portugal deixar o país e “esquecer” essa e outras aeronaves na antiga colônia, informação desmentida pelas autoridades portuguesas da época.

IMAGEM DE CAPA: Uma formação de G.91 da Esquadra 301 “Jaguares” sobrevoando algum lugar de Portugal. (Foto: Poder Aéreo)

FONTES: Com informações da Wikipédia, do site “Pássaro de Ferro” e do Facebook do Canal Militarizando.